Artigo – Idadismo ou Etarismo: o que podemos fazer?

“…os cabelos brancos são uma coroa de honra; é no caminho da justiça que se pode encontrá-la. Abençoada por Deus, a velhice impõe obediência e respeito.” – Levítico

Desde a infância, infelizmente, muitas pessoas são expostas a termos jocosos e depreciativos em relação à velhice, tais como: “isso é coisa de velho”, “quem gosta de coisa velha é museu”, “você parece um(a) velho(a)”, “está ficando gagá/caduco(a)”, “está fazendo hora extra”, “quem gosta de velho é reumatismo”, entre outras expressões pejorativas que humilham e alimentam o preconceito contra as pessoas de mais idade. Soma-se a isso a prática de infantilizar o idoso, utilizando diminutivos como “vovozinha”, “comidinha”, “bracinho”, entre outros, que, embora pareçam carinhosos, podem reforçar estereótipos de fragilidade e incapacidade.

Esse preconceito pode manifestar-se inclusive no meio médico. Alguns profissionais, por desconhecimento ou visão limitada acerca do processo de envelhecimento, atribuem queixas — especialmente dores ou lapsos de memória — simplesmente à “idade”, sem a devida investigação clínica. Tal postura pode gerar insatisfação, diagnósticos imprecisos e tratamentos inadequados.

Generalizar que o idoso é “chato”, egoísta ou rabugento não é adequado nem justo. Tais características não decorrem exclusivamente da velhice. Se alguém apresenta determinados traços de personalidade na idade avançada, é provável que já os manifestasse desde sua juventude, podendo apenas tê-los acentuado com o passar do tempo. Há um aforismo que afirma: “Com o envelhecimento, aprimoram-se as qualidades e acentuam-se os defeitos.” Assim, cada pessoa tende a envelhecer como viveu.

O que é o Idadismo?

A essa forma de discriminação baseada na idade damos o nome de idadismo ou etarismo. Trata-se de um fenômeno que afeta principalmente pessoas idosas por meio de estereótipos, preconceitos e práticas excludentes. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o idadismo refere-se aos estereótipos (como pensamos), aos preconceitos (como nos sentimos) e à discriminação (como agimos) em relação aos outros com base na idade.

Na prática, o idadismo manifesta-se em diferentes esferas, podendo ser resumido em três pilares principais:

  1. No Trabalho: Exclusão de processos seletivos e demissão de funcionários experientes por serem considerados “velhos demais”, ignorando-se sua produtividade e competência.
  2. Na Sociedade: Criação de imagens e estereótipos negativos que diminuem o valor e a capacidade da pessoa idosa.
  3. No Cotidiano: Isolamento social e exclusão de espaços comunitários frequentados majoritariamente por jovens.

 

Não são raros os casos de profissionais no auge de sua produtividade e conhecimento que são dispensados por serem considerados “velhos” para determinadas funções — e, muitas vezes, sequer atingiram a idade legalmente classificada como idosa. Perde-se, assim, um capital humano valioso, cujo aperfeiçoamento demandou anos de dedicação.

Infelizmente, o envelhecimento ainda é cercado de estigmas. O termo “velho” é frequentemente empregado de forma pejorativa, associado a ideias de fraqueza, lentidão, irrelevância ou descartabilidade. Muitos evitam falar sobre a velhice — sobretudo sobre a própria — como se fosse um tabu ou como se o envelhecer não fosse um destino comum a todos.

O Tabu do Envelhecer

Tal cenário pode estar relacionado a uma sociedade que glorifica a juventude, associando beleza, sucesso e relevância à idade jovem. Publicidade, redes sociais e produções audiovisuais reforçam a ideia de que a juventude representa o auge da vida, enquanto o envelhecimento seria algo a ser evitado. Essa visão cria pressão para manter aparência e estilo de vida incompatíveis com o curso natural da existência.

Outro exemplo marcante é a diferença de julgamento social quanto à afetividade. Jovens podem expressar livremente seu afeto em público, enquanto dois idosos que namoram ou se beijam em uma praça frequentemente são alvo de críticas ou constrangimentos. Em alguns casos, há até reações desproporcionais, desrespeitando-se o direito ao amor e à sexualidade na velhice.

Os jovens ainda enfrentarão o desafio de envelhecer — e de fazê-lo com qualidade de vida — apesar das inúmeras orientações de saúde disponíveis atualmente. Os idosos, por sua vez, já percorreram esse caminho e superaram, bem ou mal, os obstáculos que se apresentaram.

“…de todas as realidades da vida, para o jovem, a mais abstrata é a velhice.” – Marcel Proust

O Futuro é Prateado

Contudo, a realidade demográfica é inequívoca: a população idosa é a que mais cresce e continuará a crescer de forma progressiva. Projeções indicam que, por volta de 2060, representará a maior faixa populacional de todas, superando em muito a população infantil. Diante desse cenário, cabe perguntar: permaneceremos reféns do preconceito? Certamente não.

A transformação exige ações concretas em múltiplas frentes da sociedade. Para combater o idadismo, algumas medidas são fundamentais:

  1. Educação e conscientização – promover cursos e campanhas sobre envelhecimento saudável, desmistificando estereótipos desde a infância;
  2. Valorização da experiência – reconhecer o conhecimento acumulado ao longo da vida como patrimônio social;
  3. Políticas inclusivas – Respeitando o Estatuto do idoso e fazendo cumprir as leis já aprovadas que protegem contra a discriminação etária;
  4. Valorização social – reconhecer a experiência e a sabedoria dos idosos como ativos valiosos;
  5. Programas intergeracionais – incentivar encontros entre gerações em escolas e comunidades, favorecendo a troca de experiências, o aprendizado mútuo e a superação de preconceitos.

Combater o idadismo é contribuir para a construção de uma sociedade mais justa, na qual cada pessoa seja valorizada independentemente da idade. É compreender que o envelhecimento é uma etapa natural e rica da vida, repleta de sabedoria, experiências e contribuições significativas.

Envelhecer com respeito e dignidade é um direito de todos. Uma sociedade que respeita seus idosos reconhece o valor da vida humana em todas as suas fases.

“Não há assunto que os velhos não possam conduzir graças à sua inteligência.”
(Cícero, De Senectute, 44 a.C.)

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